Ave, Zuckerberg!

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Ilustração adaptada de ayekhine

O criador do Facebook, Mark Zuckerberg, tem uma estranha mania. Seja em palestras ao grande público, seja em comunicações fechadas aos acionistas, seja em entrevistas a jornais, Mark Zuckerberg frequentemente cita um livro. Mas o que é realmente estranho é que o livro em questão não é Pai rico, pai pobre, Quem mexeu no meu queijo? e nem mesmo a Bíblia (o livro mais lido do mundo, desde os tempos da carochinha). O título premiado, caro leitor, é A Eneida, do poeta Virgílio. E Mark costuma citar a Eneida justamente no texto original… em latim! Por que será que um empreendedor do ramo de tecnologia dá tanto valor a um poema escrito dois mil anos atrás?

I. Zuckerberg e Virgílio: um amor de infância

Como muitas escolas nos EUA e no Reino Unido, a Academia Phillips Exeter, onde o criador do Facebook cursou a high school (equivalente ao nosso ensino médio), ensina latim para a garotada. Como preparação, os meninos leem a Eneida, que é considerada uma das obras mais importantes da literatura ocidental. O jovem Mark teve ali seu primeiro contato com o poeta romano.

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Mas por que a paixão tão intensa e duradoura? As duas passagens mais citadas pelo criador do Facebook são as seguintes:

audentis Fortuna iuvat (Aen. X, 284).

His ego nec metas rerum nec tempora pono;
imperium sine fine dedi
(Aen. I, 278-279).

A primeira, posta na boca de um general no momento da batalha, significa “a Sorte ajuda os ousados”; a segunda é uma fala do deus Júpiter (Zeus, em grego), que afirma ter dado aos romanos “um império sem fim”, sem “limites de riquezas ou demarcação de tempo”. Será que esses versos se tornaram lemas para o ambicioso adolescente Mark?

II. Empreendedores na Antiguidade

Quem quer montar uma empresa bem-sucedida pode se inspirar em Steve Jobs e Bill Gates. Ou pode aprender com um pessoal que manteve um império funcionando por quase mil anos, e sem parar de crescer – é bom lembrar que o Império Romano cobriu a Europa inteira, o norte da África e uma parte do Oriente!

A Eneida conta a história de um príncipe troiano, chamado Eneias, que teria sido o pai fundador da raça romana. Mas o motivo pelo qual esse poema ficou tão famoso é que, por meio dessa história, ele registrou uma série de lições que os romanos deixaram para as gerações futuras. Vamos ver alguns exemplos que podem servir para orientar os brasileiros que também querem deixar um legado pela frente.

1. Contratempos são parte da jornada

No começo da história de Virgílio, Eneias lidera alguns refugiados em alto-mar. Ele já perdeu sua esposa, seu velho pai e, o pior de tudo, o seu país. Troia está em chamas, e só sobraram aqueles poucos gatos pingados. Tudo o que ele tem é a promessa vaga de que os deuses pretendem usá-lo para fundar uma grande cidade. Porém, a deusa Juno, que quer impedir a missão do herói, ordena uma terrível tempestade para exterminar a raça troiana. Desesperado, Eneias começa a pensar que teria sido melhor morrer na guerra, com honra, a aceitar essa missão impossível. Quando tudo parece perdido, o deus Netuno salva a frota troiana, que naufraga no norte da África, cansada e sem recursos.

Durante a Eneida, muitas outras coisas dão errado. A comovente morte da esposa de Eneias é apenas a primeira. O velho e inofensivo rei Príamo é cruelmente assassinado diante dos olhos do nosso herói, que não pode fazer nada. Durante a viagem, ele perde grandes amigos, que sacrificam suas vidas pela realização do propósito divino. Essas mortes e aparentes fracassos fazem parte de qualquer grande empreitada. Quanto maior a ambição, maiores as dificuldades. E sim, às vezes parece que tudo vai dar errado e que você foi um grande trouxa de acreditar que podia fazer algo importante. Mas audentis Fortuna iuvat, a Sorte ajuda os ousados!

2. Sacrifícios pessoais são necessários

Eneias é acolhido pela bela Dido, rainha de Cartago, que se apaixona por ele e planeja um casamento. Eneias seria rei de uma região poderosa e rica, com uma esposa devotada e uma vida tranquila. Infelizmente, um mensageiro dos deuses exige que Eneias vá embora, pois ele precisa fundar sua cidade na Itália. Eneias gosta de verdade da rainha, mas percebe que a vontade dos deuses é mais importante do que seus desejos pessoais.

Quando se tem um grande objetivo, surgirão alguns conflitos de ordem pessoal e familiar. Podem ser os amigos que acabam nos atrasando com uma mentalidade pouco ambiciosa (do tipo empreguinho + balada, por exemplo), ou a namorada que quer mais atenção. Quando Eneias partiu, a rainha Dido se suicidou, amaldiçoando-o terrivelmente. Ele aceitou as consequências de suas escolhas. Toda realização supõe sacrifícios. Eneias tinha valores, e sacrificou seus desejos mesquinhos por eles.

3. Você é responsável por seus atos

Alguns sacrifícios são grandes demais, e algumas vezes memórias esquecidas ressurgem, cheias de culpa e tristezas. Escolher é ganhar, mas também é perder. Nossa responsabilidade é escolher o certo, e dispensar o insignificante.

Às vezes desprezamos nossa maior riqueza, jogamos fora nossos verdadeiros amigos e cuspimos no prato em que comemos. E às vezes acertamos, mas a escolha é dura e acabamos sentindo uma ponta de dúvida: não teria sido melhor se…?

Eneias também tem que lidar com esses problemas, em muitas variantes. Antes de partir para a missão final, ele desce ao mundo dos mortos. Lá, encontra sua amada Dido, agora uma sombra triste no meio de outras sombras. Às lágrimas, ele tenta explicar-lhe que não queria ter partido; era necessário, era ordem dos deuses; ele sempre a amou, ainda a amava. Diante dessas declarações, Dido

solo fixos oculos auersa tenebat
nec magis incepto uultum sermone mouetur
quam si dura silex aut stet Marpesia cautes
(Aen. VI, 469-471).

Tradução: desviando o rosto de Eneias, Dido olhava fixamente para o chão, e nenhuma daquelas declarações e lágrimas pareciam afetá-la mais do que a uma dura pedra. Não tem jeito. O que está feito, está feito; Dido nunca perdoará Eneias. Não se pode ter tudo, nem agradar a gregos e troianos. Eneias engole suas lágrimas e acerta o passo. Ele tem um império para fundar.

III. Um Império sem limites

A Eneida é a história de um herói. Um herói é um ser humano corajoso, talentoso, mas também frágil, submetido às emoções e às imprevisíveis forças do destino. Um herói ama, odeia, tem acessos de raiva e comete erros. O que faz dele um herói é a capacidade de levantar, de novo e de novo, e enfrentar tudo e todos para fazer o que é certo. As gerações futuras contam com ele; o mundo precisa dele. Os antigos romanos achavam que todo mundo tinha obrigação de ser herói, e por isso liam a Eneida para suas crianças: para que elas tomassem aquele Eneias, seu antepassado mítico, como um exemplo a seguir.

Mark Zuckerberg parece ter decidido fazer de Eneias o seu herói. Quem é o nosso? Será que nos inspiramos no lugar certo? Será que isso faz alguma diferença? Nunca saberemos tudo o que foi necessário para construir o império do Facebook. Mas de uma coisa podemos ter certeza: nada de grande e duradouro pode sobreviver sem heróis.

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