Estágio, faculdades top e seleção

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Imagem usada em reclamação

Esta semana, a fanpage da Conversion, empresa da qual sou CEO, recebeu uma série de reclamações por conta de uma vaga de estágio que postamos no trampos.co. O ponto crucial e que gerou uma enxurrada de comentários foi aquele no qual pedíamos pessoas de universidades “top”, e inclusive eram especificados os nomes de faculdades mais bem conceituadas. Isso, com certa razão, gerou não só posicionamentos contrários como também alguns protestos criativos por parte de pessoas que se sentiram prejudicadas e, por assim dizer, atacadas. Achei bastante saudável a manifestação e, ainda que já tenha no mesmo dia me posicionado via comentário no status do Facebook, julgo relevante escrever este artigo onde discutirei qual é, realmente, a importância da faculdade no mercado de trabalho e a minha opinião sobre os processos seletivos de estágio.

Primeiro é preciso uma mea culpa, uma vez que partiu de mim a orientação de postar na vaga pessoas de universidades “top”. Repito a frase que usei na ocasião: “concordo que o texto no anúncio da vaga publicado seja inadequado, sobretudo porque não reflete a nossa opinião real.” Trata-se de uma prática mais do que conhecida no mercado, utilizada como meio de separar o joio do trigo de uma maneira que envolva menos riscos, porque a pessoa que contrata o estagiário sempre tem para si a desculpa “mas ele era um aluno da USP, da PUC… não podíamos esperar incompetência de alguém que estava nas universidades mais concorridas”.

Na verdade, há ao mesmo tempo um interesse e uma covardia em exigir diploma (e portanto, faculdade) para cargos nos quais uma formação acadêmica não interfere em absolutamente nada no trabalho exercido. As interessadas são as faculdades que, algumas delas pouco se importando com a formação de seus alunos, no fundo comercializam diplomas que são pré-requisitos para entrar no mercado de trabalho; covardes são as empresas que fazem o filtro única e exclusivamente baseando-se na instituição de ensino do concorrente a uma vaga, porque evitam o confronto com os fatos reais. Como, repito, não é o nosso caso.

Meritocracia

Na discussão gerada nas mídias sociais, se bem entendi a manifestação, o ponto principal é que no processo seletivo do estágio, a Conversion estaria levando em conta não a capacidade da pessoa e sim a grife da faculdade. Sejamos bastante honestos e reconheçamos que, de fato, sai na frente quem cursa uma faculdade dentre as mais reconhecidas pelo mercado e que, pois, mais apresenta dificuldade no seu ingresso, porque assim teoricamente selecionam-se os candidatos mais aptos. Entretanto, permitam-me fazer o papel de advogado do diabo e explicar por que a “restrição” utilizada na vaga, segundo a minha maneira de ver, não implica em mau uso da meritocracia, ou mesmo o seu desuso, e muito menos em preconceito ou restrição de acesso à empresa por conta de sua condição acadêmica (ou social, como alguns citaram).

Uma faculdade particular considerada “top” exige, de fato, da maioria de seus alunos um poder aquisitivo alto. Por outro lado, não são raros os casos de pessoas que conseguem bolsas de estudos, seja por programas de incentivo do Estado ou bolsas internas. A PUC é tradicionalmente uma campeã em oferecer bolsas e o Mackenzie é uma instituição sem fins lucrativos. Além do mais, podemos falar ainda da USP, que é uma universidade pública e que, portanto, permite o acesso através do seu vestibular, a Fuvest. Eu conheci dezenas de pessoas que se esforçaram muito para estudar na USP e conseguiram, mesmo sem ter estudado em colégio particular ou ter frequentado os cursinhos caros. Dificuldades em entrar nas faculdades mais desejadas há e sempre haverá, o que é saudável para a competição do mercado, e se não fosse assim não seriam as mais desejadas e conceituadas. Quem quer coisas fáceis tende a não aceitar facilmente a meritocracia e viverá de reclamar das condições desfavoráveis, enquanto uma oportunidade surge à sua porta, em vez de transformar seu potencial em realização pessoal e profissional.

Você e eu concordamos se dizemos que as pessoas devem ser remuneradas e reconhecidas profissionalmente exclusivamente pelos seus próprios méritos, isto é, pelas capacidades de exercer aquela função e de gerar resultados. Se estamos falando, por exemplo, de um cargo no qual seja importante o conhecimento técnico, a extroversão não deve ser fator decisivo de seleção; por outro lado, em um cargo onde há contato com o público, uma pessoa extrovertida e comunicativa  não é só importante como pode até ser indispensável. Seguindo essa lógica, eu considero essencial o curso superior para profissões extremamente técnicas e que lidam diretamente com a vida ou a morte alheias, como as relacionadas à medicina e, embora não diga respeito diretamente, incluo aí o Direito, que exige extremo conhecimento técnico. Eu acho que se poderia analisar caso a caso quando se trata de Educação e Pedagogia, porque atualmente as faculdades são péssimos lugares para se formarem bons professores. Para todas as outras profissões que não possam matar, o mercado deveria ficar satisfeito se o candidato aprendesse em um curso técnico ou por conta própria, de maneira auto-didata.

A faculdade, portanto, não pode ser necessária para que alguma pessoa pudesse se considerar um publicitário ou um marketeiro, pois o mercado é capaz de avaliar muito bem suas qualidades, que dependem de resultados: um bom publicitário cria campanhas fortes, um bom marketeiro identifica a necessidade de consumo para um produto antes inexistente. O mesmo vale para um jornalista: o jornalismo não depende de academia, pois lida diretamente com o cotidiano, os problemas, e o que diz se a pessoa é um bom ou mau jornalista são os seus artigos, as suas reflexões e até mesmo sua coragem em fazer denúncias. Idem para boa parte das profissões liberais.

Há mérito em não desistir ante a primeira dificuldade

Obviamente, não há como uma pessoa que lê o descritivo de uma vaga possa, sem uma explicação, avaliar exatamente quais são os critérios de uma empresa. De todo modo, precisamos inserir aí um fator determinante que é o mercado; a minha empresa não sou eu, mesmo que seja o indivíduo Diego Ivo que a dirija e, portanto, faça as escolhas institucionais mais importantes em seu lugar. Ao postar uma vaga de estágio, esta comunica a uma entidade abstrata que se chama “mercado” uma mensagem e, pelas práticas do próprio mercado, ela é interpretada pelo outro lado que são os candidatos. Temos portanto uma relação empresa-mercado-candidato, porque a relação empresa-candidato só se efetivará no momento em o candidato for convidado para uma entrevista.

Como já disse, percebo que seja inadequado o uso de pré-requisitos como “estar cursando universidade top”, principalmente porque isso pode ser entendido pelo mercado como uma restrição que parte de um preconceito, embora não tenhamos feito isso. Durante o processo seletivo recebemos currículos e entrevistamos pessoas de tudo quanto é universidade e, por fim, escolhemos como mais novo integrante de nosso time uma pessoa que não estava em nenhuma das faculdades mencionadas. Trata-se de uma pessoa que vendo uma dificuldade achou que era capaz de estar na nossa empresa, e portanto fez a sua parte. Aquilo que muitos viram como uma restrição, eu vejo como uma barreira: até porque estamos falando de um estágio em que a pessoa lidará com público e inclusive com vendas, ela deve saber ultrapassar as barreiras, ser cara de pau e vender o seu peixe. Os critérios que impúnhamos eram, portanto, coisas absolutamente naturais a se exigir de um estágio como executivo de contas.

Eu costumo analisar pessoalmente cada um dos currículos recebidos e, antes da faculdade, o critério que mais temos levado em conta é a capacidade de uma pessoa em escrever um texto coerente e empolgante! Isso mesmo, o texto que a pessoa é capaz de escrever diz muito mais sobre o seu potencial porque, pela minha experiência e de acordo com leituras como de Freud e Nietzsche, que muito me influenciaram na interpretação do indíviduo e de sua psicologia, um texto jamais mente sobre a pessoa em si, suas intenções ou capacidades. Portanto, ao restringir o recebimento de currículos de universidades de menor renome o objetivo não era, de fato, negar o potencial de pessoas dessas universidades, mas sim criar uma barreira: e para mim há mérito na força de vontade de superar barreiras.

Diploma, legislação e práticas de mercado

Como também expliquei no comentário que fiz no site “Facebook”, o fato de só aceitarmos pessoas que estejam cursando faculdade é um mero problema de legislação o qual respeitamos. O Brasil é um país que, infelizmente, gosta muito de burocracia e regulamentação, seja estatal ou particular, o que ao meu ver produz um estrago gigante em nosso mercado e em talentos que temos aos montes.

Eu não acredito que a faculdade seja capaz de dar uma formação adequada às necessidades do mercado porque, principalmente nas universidades públicas, os próprios professores possuem empregos eternos e muitos nunca entraram no mercado para participar do jogo de perder e ganhar. Pelo contrário: professores universitários, ao escolherem uma carreira estável, mostram-se de uma maneira geral inaptos para o mercado. As exceções são, claro, aqueles professores que estão numa universidade com emprego estável não por causa da burocracia, facilidade e garantias, mas pela paixão de ensinar e pesquisar.

De todo modo, temos a legislação trabalhista no Brasil que é irredutível, inegociável, e deve ser seguida. Uma vez que as universidades são em geral ineptas em oferecer formação com valor de mercado, é no período de estágio que as pessoas encontram a oportunidade de adquirir um conhecimento real e prático sobre alguma profissão. As faculdades, de uma maneira geral, apenas abrem o caminho do ponto de vista jurídico, que é poder ser contratado por um período inferior a 30 horas semanais, permitindo a relação empresa-estudante e abrindo espaço para o aprendizado prático e não teórico. Se essas leis não existissem e o país tivesse uma cultura auto-didata, teríamos profissionais muito mais qualificados e não seria necessário pagar inutilmente para instituições de ensino cuja única função é obter faturamento e onde a missão de educar simplesmente não existe.

Entenda como é a Conversion

A Conversion se posiciona como uma empresa diferente das outras. Quem conhece o nosso espaço, perceberá que nós somos muito focados no trabalho, criando estratégias de marketing na Internet que estão dando bons resultados e são, em certa medida, de vanguarda. O fator principal de nosso sucesso são nossos clientes e nosso time, que é formado de pessoas que estão aqui para construir algo. Posso dizer sem dúvida nenhuma que, tanto os funcionários propriamente ditos quanto os estagiários são pessoas que não pensam de maneira ordinária.

Nos momentos de pausa do trabalho, nossas conversas são mais sobre filosofia do que sobre o último capítulo da novela, ou mesmo a partida de futebol de ontem. Aliás, acho que nunca se falou de novela ou TV na Conversion, graças a Deus. Temos um espírito questionador, um espírito rebelde (no bom sentido) eu diria; mas um espírito que, em vez de procurar criticar negativamente ou destruir, está mais interessado em construir um mundo mais justo e utilizar a publicidade como meio.

Também e justamente por conta disso, são muito importantes os clientes que temos, porque não é possível você criar uma campanha que fale a verdade em um cliente que viva da mentira e tenha como único objetivo gerar lucro. É importante ter parceiros onde haja uma sinergia de pensamentos, para que seja possível acreditar nos projetos. Em nossas contas temos empresas do ramo educacional, de saúde e e-commerce, dentre outros.

A seleção de estagiários

Todo esse problema me tem levado a uma reflexão, que julgo muito interessante: qual a melhor maneira de selecionar um candidato a estágio ou contratar uma pessoa para o time? A maneira tradicional é receber o currículo, analisá-lo e se parecer bom chamar a pessoa para a entrevista. Há muito tempo eu sei que esse método é insuficiente, que às vezes mais atrapalha do que ajuda. Por outro lado, é um método aplicável e pode ser repetido por qualquer RH da face da terra, sem reflexão.

Muito coincidentemente, na noite anterior à publicação da vaga no site “trampos.co” lançamos uma página em nosso site  na qual falamos sobre quais os critérios que realmente levamos em conta na seleção de estagiários e o que esperávamos para a vaga de executiva de contas. Além de um texto descritivo, começamos a publicar um questionário com o qual podemos compreender melhor qual o perfil e as expectativas das pessoas; porque uma coisa que eu tenho clara para mim é que, mesmo que seja um bom candidato e uma boa empresa onde se trabalhar, é preciso que um seja bom para o outro e vice-versa, ou seja, é preciso haver sinergia.

Reuni abaixo os pontos em uma ordem que considero relevante para a seleção de um estagiário. Na verdade, essa é a maneira de encontrar o perfil de um candidato certo para a nossa realidade.

  1. Ter força de vontade e pensar grande;
  2. Não ser uma pessoa cheia de não-me-toques;
  3. Ser uma pessoa inteligente, conectada e que pense;
  4. Ter veia empreendedora, isto é, espírito de criar “coisas”;
  5. Responsável com horários, dedicação ao trabalho.

O que a pessoa não deve ter

  1. Não deve pensar de acordo e por causa da maioria;
  2. Não deve ter uma relação carreirista com o seu trabalho;
  3. Não deve ser uma pessoa muito teórica, porque nosso trabalho é prático, é de lidar com a realidade e  com pessoas;
  4. Não deve acreditar que “isso não é possível”;
  5. Não pode usar mal a sua liberdade, para não perdê-la;

Do ponto de vista da empresa, o estagiário encontra um espaço onde tem liberdade para criar, mas ao mesmo tempo somos muito rigorosos com prazos e horários. O ambiente de trabalho é muito tranquilo, e a pessoa pode organizar o seu horário da maneira que melhor convir e que não prejudique seus estudos. Ela também encontrará pessoas bacanas e sempre dispostas a ajudar. Sobre a remuneração, oferecemos bolsa-auxílio um pouco maior do que a média do mercado para conseguir reter bons talentos.

Como vocês podem perceber, os critérios mais importantes para nossa seleção são sobre o perfil e não sobre a formação acadêmica em si. Obviamente, espero algum tipo de erudição da pessoa, mesmo que seja “erudição” em uma banda de rock, em cinema, enfim, em algum assunto que interesse a pessoa. Não acreditamos nas pessoas que acham que já sabem e viveram tudo, porque o marketing na Internet é algo muito novo e no Brasil infelizmente não há a menor formação. Nós preferimos formar as pessoas aqui.

Espero que, com este texto, tenha deixado claras as minhas posições pessoais quanto ao caso, que não refletem necessariamente a opinião da Conversion (as opiniões aqui são, pois, minhas e só minhas). Torço para que todo mundo que leu o texto até aqui possa participar de uma discussão sobre o diploma, a fama de uma faculdade, como uma empresa pode selecionar seu time e como um profissional pode ser mais bem recebido em uma empresa.

* Diego Ivo é CEO da Conversion e um dos principais profissionais de Otimização de Sites (SEO) no Brasil. Cuida das estratégias online de diversas contas.

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