Empresa encerrou testes com publicidade iniciados em 2024 e aposta em modelo de assinaturas, em movimento contrário ao do ChatGPT que começou a exibir ads
Perplexity AI encerrou todos os testes com publicidade em sua plataforma de busca por IA e não planeja retornar com anúncios. A decisão, reportada pelo Financial Times em fevereiro de 2026, posiciona a empresa na direção oposta à de concorrentes como OpenAI, que começou a testar ads no ChatGPT na mesma semana.
A empresa foi uma das primeiras plataformas de IA a introduzir respostas patrocinadas, mas concluiu que a presença de anúncios compromete a credibilidade das respostas geradas. Com mais de 100 milhões de usuários e receita anual estimada em US$ 200 milhões, a Perplexity aposta agora exclusivamente em assinaturas.
O movimento reacende o debate sobre monetização de ferramentas de IA generativa: publicidade ou assinaturas. Enquanto a Perplexity escolheu confiança, a OpenAI optou por escalar receita com anúncios para a base gratuita do ChatGPT.
Por que a Perplexity desistiu de anúncios
A justificativa da empresa gira em torno da confiança do usuário nas respostas geradas pela IA. Um executivo da Perplexity explicou a lógica ao Financial Times de forma direta.
“O usuário precisa acreditar que esta é a melhor resposta possível, para continuar usando o produto e estar disposto a pagar por ele”, afirmou o executivo. A preocupação é que anúncios criam dúvida sobre a imparcialidade das respostas.
O mesmo executivo detalhou o risco: “O desafio com anúncios é que o usuário simplesmente começaria a duvidar de tudo, por isso não vemos isso como algo produtivo para focar agora”. A declaração indica que a empresa considera publicidade incompatível com o modelo de “motor de respostas” baseado em IA.
A lógica da Perplexity se aplica particularmente a plataformas de busca por IA, onde cada resposta carrega autoridade implícita. Diferentemente de mecanismos de busca tradicionais, que apresentam links para o usuário avaliar, motores de resposta entregam informação consolidada — o que torna qualquer viés comercial mais difícil de identificar.
Cronologia da decisão
A Perplexity começou a testar respostas patrocinadas em 2024, tornando-se uma das primeiras empresas de IA generativa a experimentar publicidade dentro de resultados gerados por modelo de linguagem. Os testes incluíam menções patrocinadas integradas às respostas da plataforma.
Em outubro de 2025, os sinais de mudança já eram visíveis. Jessica Chan, diretora de parcerias com publishers da Perplexity, anunciou na Advertising Week em Nova York que a plataforma havia parado de aceitar novos anunciantes e estava reavaliando o papel da publicidade na experiência do usuário.
A decisão final de encerrar completamente os testes veio em fevereiro de 2026, quando a empresa confirmou ao Financial Times que não planejava retomar a publicidade. O encerramento foi gradual, com a remoção progressiva de todos os formatos patrocinados ao longo dos meses anteriores.
O período de quase dois anos entre o início dos testes e a decisão de abandoná-los indica que a empresa avaliou o impacto de anúncios em métricas de engajamento e retenção antes de concluir que o modelo era insustentável para um motor de respostas por IA.
Modelo de receita baseado em assinaturas
Sem publicidade, a Perplexity aposta integralmente em assinaturas como fonte de receita. A plataforma oferece um plano gratuito com funcionalidades básicas e planos pagos que variam de US$ 20 a US$ 200 por mês, com acesso a modelos mais avançados e funcionalidades premium.
A empresa alcançou receita recorrente anual (ARR) de aproximadamente US$ 200 milhões no final de 2025, um crescimento de quase cinco vezes em relação ao ano anterior. Com mais de 100 milhões de usuários, a estimativa é de que entre 800 mil e 1,6 milhão sejam assinantes pagos.
A meta de receita para 2026 é de US$ 656 milhões, o que representaria crescimento de 230% em relação ao ano anterior. A empresa avalia que esse crescimento é viável com a combinação de assinaturas individuais e contratos corporativos.
Contraste com o ChatGPT e o mercado de IA
Na mesma semana em que a Perplexity confirmou o fim dos anúncios, a OpenAI começou a testar publicidade no ChatGPT para usuários dos planos gratuito e Go. Os anúncios aparecem abaixo das respostas, com a indicação de que anunciantes não influenciam o conteúdo gerado.
As duas decisões simultâneas ilustram caminhos opostos de monetização no mercado de IA generativa. A OpenAI busca monetizar sua base de centenas de milhões de usuários gratuitos, enquanto a Perplexity aposta que a ausência de anúncios é um diferencial competitivo para converter usuários em assinantes.
O debate não é exclusivo dessas duas empresas. Google, Meta e outras companhias de tecnologia também enfrentam a questão de como integrar publicidade em produtos de IA sem comprometer a percepção de qualidade e imparcialidade das respostas geradas.
A escolha entre os dois modelos tem implicações diretas para o mercado de marketing digital. Plataformas com publicidade oferecem canais pagos para marcas, enquanto plataformas baseadas em assinaturas exigem que marcas conquistem visibilidade organicamente — através da qualidade do conteúdo citado pela IA.
Números da Perplexity em perspectiva
A Perplexity opera com mais de 100 milhões de usuários registrados, número que cresceu significativamente desde o início dos testes com IA de busca. A receita anual de US$ 200 milhões posiciona a empresa entre as startups de IA com maior tração comercial.
O modelo de assinaturas com faixas de US$ 20 a US$ 200 mensais permite capturar tanto usuários individuais quanto equipes corporativas. A meta de US$ 656 milhões em receita para 2026 implica que a empresa precisará triplicar sua base de assinantes pagos ou aumentar o ticket médio de forma expressiva.
A avaliação da empresa está estimada em US$ 20 bilhões, sustentada pelo crescimento acelerado de receita e pela base crescente de usuários. A decisão de abandonar publicidade representa uma aposta de que o valor percebido de respostas sem viés comercial justifica o prêmio cobrado nas assinaturas.