Folha cede arquivo e feed em tempo real para treinamento do Gemini em modelo de remuneração com parte fixa e variável, formaliza primeira parceria do veículo com plataforma de IA e segue movimento do Estadão.
A Folha de S.Paulo confirmou nesta semana acordo com o Google para licenciar conteúdo jornalístico ao Gemini. A parceria, primeira do veículo com uma plataforma de IA, prevê acesso ao arquivo completo e feed em tempo real para uso na geração de respostas pelo modelo.
O acordo segue o assinado pelo Estadão em janeiro e consolida o movimento de grandes veículos jornalísticos (publishers) brasileiros para monetizar conteúdo via IA generativa. A Folha não divulgou o valor da operação, mas explicou o formato em entrevista a veículos especializados.
Adicionalmente, o veículo aderiu ao programa News Pilot, do Google News, que usa IA para diversificar formatos de conteúdo. A Folha também passa a integrar o Pinpoint, ferramenta de pesquisa para jornalistas, com acesso a reportagens baseadas em documentos públicos.
O que está no acordo
O contrato cobre dois fluxos principais. O primeiro, o feed em tempo real de notícias, é direcionado a treinamento e citação no Gemini. O segundo, o arquivo histórico, alimenta consultas que exigem contexto de fatos passados em respostas geradas pela IA do Google.
Em contrapartida, a Folha recebe remuneração estruturada em duas camadas: uma parte fixa, contratual, e uma parte variável, atrelada ao uso. A empresa não divulgou valores específicos, mas confirmou que o modelo segue padrões adotados em parcerias internacionais entre grandes publishers e plataformas de IA.
Além disso, o Gemini deve exibir nas respostas geradas créditos diretos à Folha, com menção ao veículo e links para reportagens originais que serviram de base. Esse formato responde à preocupação da empresa em manter visibilidade editorial nos novos canais.
Por que a Folha aceitou
Em entrevista, Sérgio Dávila, diretor de redação da Folha, justificou a decisão. Segundo o executivo, plataformas de IA já utilizavam o conteúdo do jornal sem autorização, e o acordo formaliza fluxo que estava ocorrendo de maneira informal.
Dávila afirmou: “Não há como ignorar a IA generativa”. A frase resume a tese de que veículos jornalísticos precisam de modelo formal de licenciamento para proteger propriedade intelectual sem perder presença nos canais onde a audiência migra.
Inclusive, o executivo destacou que jornalismo profissional segue ofertando precisão e curadoria que sustentam efetivamente valor para plataformas. O acordo, segundo a Folha, reconhece esse valor com remuneração proporcional ao uso.
Contexto: processo contra OpenAI
Antes de assinar com o Google, a Folha de S.Paulo entrou com processo contra a OpenAI. A ação, ajuizada em 2025, contesta uso não autorizado de reportagens do veículo para treinamento de modelos de linguagem e reprodução integral de matérias em respostas do ChatGPT, da OpenAI.
O processo contra a OpenAI segue em curso, sem definição. A Folha indicou que a parceria com o Google não afeta o litígio nem impede futuros acordos com outras plataformas, desde que respeitem padrões de licenciamento.
A movimentação coloca a Folha em situação semelhante à de outros grandes veículos internacionais que litigam com OpenAI enquanto firmam acordos comerciais com Google, Microsoft ou Anthropic. O padrão tende a se consolidar em diferentes mercados.
Estadão e o movimento dos veículos brasileiros
O Estadão fechou parceria com o Google em janeiro e foi o primeiro grande veículo brasileiro a anunciar acordo formal com uma plataforma de IA. O modelo do Estadão seguiu linhas semelhantes às da Folha, com licenciamento de arquivo e feed.
A entrada da Folha consolida o Google como principal parceiro de IA dos grandes veículos brasileiros. A movimentação reduz incerteza jurídica para o Gemini no mercado nacional e reforça a presença de fontes brasileiras nas respostas geradas pelo modelo.
Em paralelo, outros veículos brasileiros monitoram a evolução do mercado. A expectativa é que novos acordos sejam anunciados nos próximos meses, especialmente entre veículos regionais e grupos especializados em conteúdo segmentado.
O que muda para veículos jornalísticos brasileiros
Para os veículos, a parceria abre precedente concreto sobre estrutura de remuneração viável no Brasil. O modelo de parte fixa e parte variável estabelece referência que pode ser replicada por outras empresas em negociações futuras com Google, OpenAI ou Anthropic.
Por outro lado, a presença de Folha e Estadão no Gemini muda a composição de fontes citadas em respostas geradas para o público brasileiro. Marcas e profissionais de marketing que monitoram visibilidade em IA tendem a ver maior peso de veículos nacionais nas respostas, com reflexos em estratégias de SEO em IA.
Próximos passos do acordo
A Folha e o Google não divulgaram cronograma específico para liberação completa do acesso ao feed em tempo real pelo Gemini. A integração, segundo a Folha, será gradual e acompanhada de avaliações sobre exibição de créditos editoriais.
Além disso, a empresa indicou que avaliará impacto da parceria no tráfego direto ao site da Folha. A métrica é considerada chave para futuras renegociações e para definir prazos de renovação do contrato com o Google.