O novo normal: o que podemos esperar do mundo pós-coronavírus

Isabella Carvalho
Isabella Carvalho

Novas comunidades, vida digital e uso de tecnologias: o mundo pós-coronavírus vai trazer o futuro mais rápido do que todos imaginávamos. Confira a primeira reportagem do Conversion News.

Estamos vivendo em um período de aceleração do futuro. Essa é a visão de especialistas sobre o atual cenário causado pelo novo coronavírus. Com o isolamento social, grande parte da população mundial passou a viver uma nova rotina. O que antes era feito pessoalmente, ganhou versão online. Para suprir uma demanda crescente por serviços digitais, empresas dos mais diversos setores migraram para esse novo universo.

O termo transformação digital nunca esteve tão em alta e, quase de uma hora para outra, as compras online, o home office e o e-learning se tornaram práticas comuns. Em um período pós-pandemia, viveremos um novo normal. Nele, mudanças em setores como saúde, ensino, lazer, cultura, varejo e até mesmo gastronomia resultarão em novas tendências e costumes.

“Já temos alguns sinais claros de mudanças dessa realidade pós-coronavírus. O contato com o digital está muito mais intenso e os hábitos de consumo e comportamento mudaram. No futuro, veremos uma flexibilização nos modelos de trabalho e de ensino. Além disso, a tecnologia vai estar muito mais presente no nosso dia a dia”, ressalta Cezar Taurion, head de transformação digital da Kick Ventures, em entrevista ao Conversion News.

O executivo ressalta que uma sociedade inteira será transformada. Isso inclui também as gerações mais velhas, que estão se readaptando e construindo novos hábitos a partir desse cenário, usando soluções e tecnologias antes desconhecidas  — o que consolida o coronavírus como um legítimo estímulo para a digitalização.

Um estilo de vida digital

Katherine Mangu-Ward, editora-chefe da Reason Magazine, afirmou, em entrevista à Politico Magazine, que o coronavírus varrerá muitas das barreiras artificiais para impulsionar nossas vidas online. De acordo com Katherine, será muito improvável retornar aos padrões antigos depois de usuários descobrirem o poder da tecnologia — o que refletirá no mundo do trabalho, estudo e entretenimento. “Será quase impossível colocar “o gênio de volta na garrafa”, com muitas famílias descobrindo que preferem estudar em casa, parcial ou totalmente, ou fazer trabalhos de forma remota”, ressaltou.

Já na visão de Sherry Turkle, professora de estudos sociais de ciência e tecnologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), viveremos em um estilo de vida digital mais saudável, com a criação de novas comunidades. Sherry cita como exemplo os shows transmitidos ao vivo, as aulas de yoga nas plataformas digitais e as interações que, mesmo de longe, se tornaram ainda mais intensas. “Se, no futuro, aplicarmos nossos instintos mais humanos em nossos dispositivos, esse será um poderoso legado do Covid-19”, disse a especialista.

Novos modelos de negócio

Com a pandemia, empresas de todos os portes estão se reestruturando e até mesmo criando novos produtos e serviços — algumas delas, inclusive, repensaram seu modelo de negócio para não ficar para trás. “O que eu vejo, é que a transformação digital será muito mais acelerada. Entendo que as empresas como um todo vão investir para que o consumidor esteja ainda mais online”, ressalta Diego Ivo, CEO da Conversion.

Aquelas que investirem em marketing, em estrutura e um bom gerenciamento de caixa, devem passar por isso de forma mais rápida. Segundo Diego, ganhar participação no mercado, com ações concretas, será fundamental para crescer em um futuro pós-pandemia. “As empresas que melhor se posicionam são aquelas que ganham muita reputação perante ao público. O consumidor quer cada vez mais uma marca com propósito, e isso vai se tornar ainda mais forte depois dessa crise”, ressalta.

Setores redesenhados e crescimento da tecnologia

Com essa transformação digital acelerada, o mercado todo passará por grandes mudanças. Novas tecnologias permitirão que o sistema de saúde seja mais eficiente, que a educação seja aprimorada e que a prestação de serviços se torne mais ágil. Neste contexto, alguns setores se destacam como os mais impactados, em um redesenho que deve mudar a forma como nos relacionamos com diversos produtos e serviços.

Educação é um deles. Em poucas semanas, a população passou a consumir conteúdos e aprender de forma online. Neste cenário, o ensino a distância, ou EAD, ganhou força. Como é o caso da Gran Cursos, edtech que oferece cursos online para concursos públicos e Exame de Ordem. Nas últimas semanas, a empresa concluiu seu melhor trimestre da história, graças ao aumento de alunos por conta do isolamento.

“Em países que passam por uma crise, as pessoas tendem a investir na educação, pois elas enxergam isso como uma das poucas formas de mudar de vida depois desse período”, ressalta Rodrigo Calado, CTO e um dos fundadores da Gran Cursos, em entrevista ao Conversion News. O empreendedor ressalta que a educação digital não é uma novidade — no entanto, ela enfrentava um grande vilão: é preciso ter muita disciplina. “Agora, é impossível estudar em um local fisicamente, o que está trazendo as pessoas para o online e fazendo com que elas considerem essa opção”.

Segundo Calado, a expectativa é de que, em um cenário pós-pandemia, as empresas e instituições adotem um modelo de ensino híbrido. “Sabemos que existem alguns cursos que exigem presença, mas que também podem ter um formato diferente. A teoria pode ser feita de forma online, enquanto a prática pode ser realizada em um local físico”, ressalta.

O empreendedor ainda acredita que, nos próximos anos, a área de tecnologia se tornará ainda mais importante nas organizações de todos os setores. No Gran Cursos, ela é parte essencial do negócio. A empresa, que tem um time de 40 pessoas apenas na área de TI, usa inteligência artificial, machine learning, aplicativo, sistema de recomendação de cursos e outras ferramentas para potencializar o aprendizado do aluno.

“Nunca tivemos tantos holofotes voltados para tecnologia. O mundo todo está falando nisso. Em um período de pandemia, diversas mentes estão trabalhando para resolver problemas com soluções tecnológicas. Mais do que nunca, todas as empresas estão considerando e levando mais a sério essa área. É um movimento impressionante”, diz.

O forte crescimento do e-commerce

Atuando como diretor de transformação digital do Grupo Afeet, Luiz Felipe Munhoz também acompanhou uma mudança acelerada na holding, que é dona de marcas como Authentic Feet e Artwalk. Hoje, a companhia possui três pilares: franquias, lojas e e-commerce. Com a pandemia, precisou fechar as portas de praticamente 100% das unidades físicas. “Nas duas primeiras semanas, tivemos uma queda de fluxo, mas em pouco tempo começamos a retomar. Registramos um crescimento de 40% nas vendas do e-commerce”, conta Munhoz.

O número de vendas cresceu, principalmente, pela mudança de hábitos da sociedade — que passou a considerar, quase que obrigatoriamente, as compras online. Segundo uma pesquisa realizada pela SmartCommerce em março deste ano, cerca de 40% dos atuais compradores online fizeram sua primeira compra no mesmo mês do estudo. Ou seja, quase metade dos clientes de e-commerce estão descobrindo um “novo universo”.

Segundo Munhoz, esse é um movimento sem volta. “Quem nunca tinha experimentado fazer qualquer compra digitalmente, seja de produto ou serviço, precisou fazer. Como grande parte das empresas têm feito um bom trabalho de entregas, esse consumidor vai se sentir satisfeito e criar um novo hábito”, diz.

O executivo ressalta que a holding também vem trabalhando com seu grupo de franqueados com soluções para permitir que eles vendam online. “Todos eles agora têm um link rastreável e recebem alguns benefícios quando vendem por ele. Comprando desses franqueados, os clientes ainda têm descontos. Fizemos essa ação para incentivar o ecossistema e o crescimento do digital”, explica.

Assim como Rodrigo Calado, Munhoz acredita que a transformação tecnológica será visível em um futuro nem tão distante. As empresas que não se digitalizarem certamente ficarão para trás. “As organizações negligenciaram por muito tempo o departamento de TI. Inevitavelmente, as ferramentas tecnológicas vieram para ficar. Não só para o consumidor, mas para trazer produtividade e agilidade para as empresas. Acredito que em um cenário pós-pandemia teremos novas soluções por trás de todo projeto e de toda nova ideia. Esse é um movimento que veio para ficar e ainda vai se acelerar muito”.

Escrito por Isabella Carvalho

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